Modo Claro

— Você chegou mais cedo do que eu esperava. Estava preocupada com o trânsito.

— Ahn…

Cheongyeon parou de pé, numa postura desajeitada.

Levou um tempo considerável para despertar daquele estado de atordoamento.

Ele nunca imaginaria encontrar Do-Heon ali. As pupilas de Cheongyeon oscilavam sem remédio, como se houvesse um terremoto, sem achar onde pousar o olhar.

Quando enfim recobrou o juízo e lançou a Do-Heon um olhar que dizia “o que você está fazendo aqui?”, ele também balançou a cabeça de leve, como quem não sabe.

— Deve ter sido cansativo vir até aqui. Se acostumou bem com o fuso?

A única pessoa ali que parecia totalmente impassível era a avó. Por isso, Cheongyeon percebeu que aquela situação era fruto de um plano intencional dela.

— Claro. …Mas, vovó. Por que o senhor diretor está aqui? Aconteceu alguma coisa?

— Ah. É que eu me confundi com as datas, veja você.

— Datas?

— Esqueci que hoje era o dia em que o Do-Heon vinha e acabei convidando você. Eu também só lembrei que tinha marcado com os dois ao mesmo tempo agora há pouco, depois que o Do-Heon chegou.

— Sei…?

— Meu Deus. Com a idade a gente vive esquecendo as coisas. É por isso que envelhecer é um problema.

— …….

— …….

Mas que atuação mais péssima é essa.

O jeito de falar entrecortado, com cara evidente de texto decorado, era um martírio para os ouvidos. Avaliando como ator, a atuação dela não podia ser mais artificial.

Diante daquela desculpa desleixada, como quem recita um livro didático, o desconcertado Cheongyeon voltou a olhar para Do-Heon. Mesmo ouvindo aquela história absurda, não houve mudança perceptível na expressão de dele.

Certo. É verdade que sangue não é água.

Aquele ar seco de deserto que os dois exalavam era sem dúvida herança de família.

Cheongyeon organizou com calma a origem daquele encontro constrangedor a três.

Ou seja: a avó, sabendo que tanto Do-Heon quanto ele estavam nos Estados Unidos, convocou cada um à casa de campo. E isso calhou de ser no mesmo dia, na mesma hora.

Pela reação dele ao entrar, parece que Do-Heon também não esperava por isso…

— Não fique aí parado como uma estátua, venha se sentar, Cheongyeon-a.

A avó alegou ter se confundido com as datas, mas a intencionalidade era evidente em vários aspectos.

O fato de tê-los chamado àquela hora para a casa de campo de Nova Jersey, aonde ela raramente ia, e aquela atuação sem pé nem cabeça eram as provas.

Mas por quê? Até então ela nunca tinha mencionado nem de passagem uma reconciliação entre ele e Do-Heon, por isso a situação era ainda mais repentina.

— O que foi. Não quer? Se o Do-Heon te incomoda tanto, quer que eu o expulse?

Como não vinha nenhuma reação de Cheongyeon, a avó voltou a falar.

— N-não. Vou me sentar.

Cheongyeon se sentou desajeitadamente à frente de Do-Heon.

— Chamei porque o Cheongyeon passou por Nova York para filmar e o Do-Heon disse que veio a trabalho. Espero que sejam generosos e entendam que uma velha errou de tanta alegria em vê-los.

— Claro… pode acontecer.

— Sei que é desconfortável, mas, já que vieram, façam ao menos uma refeição juntos. E façam companhia a esta velha.

Cheongyeon molhou a garganta com o chá que estava à sua frente.

Até a empregada que trouxe o chá era alguém que ele conhecia da Coreia, a ponto de ele se confundir sobre se estava nos Estados Unidos ou na Coreia.

Se não fosse pela paisagem do jardim e da rua estranhos do lado de fora da janela, ele acreditaria se lhe dissessem que era a casa da avó que ele visitava com frequência.

— Pensando bem, faz tempo que vocês dois não se veem, não é? Já na Coreia é assim, e nos Estados Unidos, com um território tão vasto, é mais difícil ainda se cruzarem.

Naquele instante, Cheongyeon quase cuspiu o chá que bebia.

Tendo encontrado Do-Heon anteontem à noite e passado até a noite anterior só transando, a fala da avó, feita na mais completa ignorância, fez seu telhado de vidro tremer.

— Sim, é natural que seja assim.

Cheongyeon assentiu com a cabeça enquanto forçava o chá garganta abaixo.

Seria bom se Do-Heon entrasse na conversa nesse ponto, mas ele estava sentado quieto, encarando apenas Cheongyeon. Daquele jeito, ia acabar furando seu rosto.

Cheongyeon fuzilou Do-Heon com o olhar, escondido da avó. Quando lhe fez sinal com os olhos para que fingisse tê-lo encontrado pela primeira vez em Nova York, só então Do-Heon assentiu.

— Você tem passado bem?

E então perguntou por ele do nada.

— Hã? Ah, sim. Mais ou menos…

— Parece que você tem andado ocupado.

— Ando meio enlouquecido, sim. O senhor diretor, se veio a trabalho, também deve estar ocupado.

— Desta vez a agenda está tranquila.

— …….

Trocar amenidades fingindo nunca ter se visto com alguém com quem tinha estado até o dia anterior era um constrangimento de matar.

Toda vez que ouvia a voz de Do-Heon, a cena da confissão lhe voltava à mente e as pontas dos dedos formigavam demais. Por mais que abrisse e fechasse a mão sob a mesa, a sensação de coceira não passava.

Sem coragem de encará-lo, Cheongyeon fixou o olhar no prato de frutas.

— Quando você chegou a Nova York?

Ele achou que as amenidades já tinham acabado, mas Do-Heon prosseguiu com as perguntas.

— …Faz poucos dias. E o senhor diretor?

— Eu também.

Os olhos dele não se desgrudavam de Cheongyeon nem por um instante.

Ah, a vovó está do lado, por que ele está agindo assim?

Por causa de Do-Heon, que deixava explícito demais que havia algo entre eles, um suor frio escorreu pelas costas de Cheongyeon.

— …….

Sem aguentar mais, Cheongyeon virou a cabeça para o lado a fim de tomar o resto do chá. Nesse momento, seus olhos encontraram os da avó, que o observava com um olhar de certa satisfação.

Droga. Ele se sentiu completamente enredado pela avó.

— …Ahem. A senhora tem passado bem, vovó? Como anda a saúde?

Cheongyeon ergueu desajeitadamente os cantos da boca e mudou de assunto.

— Se eu não estivesse bem de saúde, não estaria aqui sentada, não é? Os Estados Unidos são tranquilos; quando a gente fica quieta, nem vê o tempo passar. Não é um lugar ruim para descansar.

— Que bom que combinou com a senhora.

— Vendo vocês dois aqui, fico ainda mais contente. Mudando de assunto. Parece que você tem aparecido bastante por aí ultimamente.

— Eu?

— Ora, vi numa revista coreana que você fez fotos segurando um perfume.

Quando foi que ela viu isso. Cheongyeon coçou a bochecha, sem jeito.

— Isso foi fotografado com bastante antecedência.

— Sei. E o Do-Heon foi tão contra. E agora, que você faz à vontade essa tal carreira de artista de que gostava, qual é a sensação?

Cheongyeon umedeceu com a língua o lábio inferior ressecado.

Chegou a pensar por que ela estava sendo tão incômoda, mas, por outro lado, achou: e daí?

Já que era assim mesmo, Cheongyeon se ajeitou confortavelmente na cadeira.

— É divertido. Não é fácil, mas às vezes acho que devia ter feito isso antes.

— Nem preciso perguntar de você, porque você aparece muito na TV coreana. É gostoso ficar acompanhando. Do-Heon, você não sabe o que é caminhão de café, né?

— Ah, vovó. Por que a senhora traz isso à tona de repente?

— Eu já mandei duas vezes para o set do Cheongyeon. Foi há uns dois meses, acho…

A avó falou em tom de vanglória.

— E não pode mandar a qualquer hora; disseram que era preciso marcar a data e pedir autorização, então mandei o gerente Seo cuidar disso.

— Eu também já mandei.

— O quê?

Diante da resposta de Do-Heon, a avó ergueu as sobrancelhas.

Cheongyeon chutou a perna dele por baixo da mesa, como quem diz “por que você vai falar uma coisa dessas?”.

Mas Do-Heon apenas deu de ombros, lançando-lhe um olhar de quem não entende qual é o problema.

A surpresa durou pouco. Logo a avó olhou alternadamente para Do-Heon e Cheongyeon com olhos cheios de interesse.

— Ora, ora, como eu imaginava… Parece que a garotada de hoje é mesmo diferente da nossa época. Divorciados e mandando caminhão de café um para o outro.

Não era uma fala apropriada para quem, com toda a naturalidade, chamara duas pessoas divorciadas até os Estados Unidos e as sentara no mesmo lugar. Cheongyeon segurou a muito custo a coceira na língua de dizer que a avó também não ficava atrás.

Sinceramente, era uma situação tão sem pé nem cabeça que ele nem sabia o que dizer. Nem sabia por que estava ali… E ficava ansioso por não saber se a avó estava agindo assim porque sabia de alguma coisa ou se tinha outras intenções.

— Vou preparar a refeição.

Bem nessa hora, a empregada interveio no momento oportuno. Depois de confirmar que as três xícaras estavam vazias, ela começou a recolhê-las.

Quando aquele clima estranho que deixava as pessoas desconfortáveis se dissipou, ainda que brevemente, Cheongyeon finalmente conseguiu respirar.

Os três trocaram novidades atrasadas durante a refeição.

Quanto mais conversavam, mais parecia que a avó não tinha nenhum objetivo especial ao chamá-lo junto com Do-Heon. Ocorreu-lhe que talvez ela estivesse simplesmente solitária ou que realmente tivesse esquecido as datas.

Felizmente, a refeição, que ele temia que fosse constrangedora, transcorreu sem problemas.

Como se nunca tivesse havido nada de sombrio, Cheongyeon viu a fartura de comida coreana servida na mesa e se concentrou em comer, esquecido de tudo.

Pouco depois do fim da refeição, um médico americano bateu à porta com pontualidade militar. Chegando de surpresa, ele disse que era hora de tomar o remédio e a injeção e começou a tirar os instrumentos médicos que trouxera.

Nesse meio-tempo, a avó empurrou as costas de Do-Heon e Cheongyeon, mandando-os passear sem lhes dar escolha. Insistindo que, se caminhassem cinco minutos lá fora, encontrariam um parque bonito, ela os fez sair da casa como se fossem expulsos.

— Eu não sabia que você continuava em contato com a vovó.

Ao saírem da casa, Do-Heon abriu o portão do jardim para que ele passasse.

— Ah. Acabou acontecendo… É estranho?

Ele balançou a cabeça.

— Só achei inesperado.

Felizmente, ele não parecia contrariado.

Os dois passaram pelo portão enorme e começaram a caminhar lado a lado em direção ao parque.

Pela rua passavam algumas pessoas passeando com cachorros. Na avenida larga e comprida não havia um único carro.

Como as casas enfileiradas dos dois lados da rua tinham jardins cuidados com esmero, sentia-se um perfume suave de flores e capim.

— Como está seu corpo. Não dói nada?

— Como você pode ver, estou ótimo.

Do-Heon assentiu. E, poucos segundos depois, voltou a falar.

— Você pensou?

— No quê?

— Ontem. Eu pedi que você me desse mais uma chance.

Aparentemente era algo que o incomodava bastante, porque Do-Heon parou de andar e ficou de pé na calçada, esperando a resposta.

∙ ∙ ∙ ∙ ∙ ∙

Continua….

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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna

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Sinopse: 

Cheong-yeon exige o divórcio de Do-heon, encerrando seu casamento de três anos.
— Acho que já vi o suficiente, tanto o bom quanto o ruim. Vamos acabar com isso. Por favor, divorcie-se de mim, Do-heon.
E assim, Yoo Cheong-yeon adiciona “divorciado” à sua lista de títulos, ao lado de ex-ídolo fracassado e formado no ensino médio. Enquanto ele luta para retomar sua carreira de ator, que havia abandonado devido à oposição de Do-heon, seu ex-marido começa a agir de forma estranha.
— É apenas imaginação minha, ou Do-heon, que nunca demonstrou o menor interesse por mim antes, continua por perto?
Eventualmente, Do-heon chega a propor um acordo de patrocínio a Cheong-yeon.
— Patro…cínio?
— Uma vez por semana. Encontrar-me toda sexta-feira à noite.
— Por que eu deveria aceitar patrocínio de você, Diretor?
— Porque eu posso conseguir um papel para você naquela novela. Como protagonista, é claro.
Cheong-yeon quer recusar categoricamente, dizendo-lhe para não falar bobagens, mas a oferta do ex-marido rico é tentadora demais.
— Mas esse cara nem gostava de fazer sexo comigo quando estávamos juntos.
A atitude imprevisível de Do-heon deixa Cheong-yeon confuso.
— Tudo bem. Eu aceito se não houver contato físico. Não é como se você estivesse fazendo essa oferta porque quer dormir comigo, de qualquer forma.
— Por que você pensaria que eu não exigiria sexo de você?
Os olhos de Cheong-yeon se arregalaram com essas palavras inesperadas.
— O quê?
— Mesmo que estejamos divorciados agora, fomos casados legitimamente.
— Então… isso significa…
— É claro que sexo está incluído. Essa não é a condição básica de um patrocínio?
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